Reflexões sobre a forma de pensar do design
Recentemente finalizei o Mestrado em Design na Unisinos – Porto Alegre. Confesso que no início, por ser formada em Marketing pela ESPM, com graduação e especialização na mesma instituição, tive um choque de mundos.
Mas posso garantir que me apaixonei pela área.
Neste artigo, compartilho minhas principais impressões sobre design como forma de pensamento.
Se eu pensasse em design há até pouco atrás, com certeza pensaria em desenho, em formas e materiais. E de fato, ainda hoje converso com muitas pessoas que compartilham da mesma visão.
Para Krippendorff (2006) o conceito de design é comumente associado a questões funcionais e estéticas de produtos – talvez pela sua origem e proximidade com áreas que possuem bases técnicas como a engenharia e arquitetura. Para o autor, esse pensamento, apesar de limitador, é compartilhado por grande parte da indústria e mercado, incluindo profissionais da área. Na mesma linha de raciocínio, Franzato (2010) e Borba e Reyes (2003) sinalizam que, contemporaneamente existe uma visão que enxerga a disciplina do design como fornecedora de competências operacionais para o desenvolvimento de produtos, peças gráficas e ambientes de qualidade – relacionada à estética e forma.
Sim. O design tem a ver com todas essas associações. Entretanto, a disciplina tem cada vez mais demonstrado a amplitude da sua atuação como um modo de pensar.
Como substantivo em português, a palavra design significa ‘desenho’. Design deriva do latim ‘designare’, composto pela preposição ‘de’ juntamente com a palavra ‘signum’, ‘signo’. Assim, pode ser entendido como algo que estabelece uma relação com signos, representações e imagens. Na língua inglesa design é habitualmente utilizada como sinônimo do substantivo ‘projeto’, e também do verbo ‘projetar’. (FRANZATO, 2010).
Dessa forma, é entendido o por quê do design interagir com tantas disciplinas e, da mesma forma, haver tantas visões e entendimentos particulares sobre o que é design.
O design não tem um assunto especial próprio para além do que um designer concebe. O assunto do design é potencialmente universal em seu escopo, porque pode ser aplicado a qualquer área da experiência humana” (BUCHANAN, 1992, p.16).
Nessa perspectiva, Buchanan (1992) sustenta que o design funciona como uma disciplina integrativa. Para criar o que ainda não existe, o designer estabelece um princípio de relevância entre os conhecimentos das artes e das ciências.
Uma vez que um produto é concebido, planejado e produzido, ele pode se tornar um objeto de estudo para qualquer uma das artes e ciências – história, economia, psicologia, sociologia ou antropologia, ou ainda, de uma nova ciência, “a ciência do artificial”. Tal raciocínio produz no design uma flexibilidade de interpretações radicalmente diferentes em seu pensamento e prática.
Essa versatilidade remeteu ao design associações e aplicações diversas. Design industrial, design de produtos, design de serviços, communication design, event design, e tantos outros, são utilizados para remeter a atividade, compartilhada entre os campos da arquitetura, engenharia, comunicação e design (FRANZATO, 2010; ZURLO, 2010).
Em 1992, Buchanan publicou o artigo “Wicked Problems in Design Thinking”.
Na abordagem de ‘design thinking’, a ideia do design não é reduzida em termos do seu produto final, mas em sua forma de pensamento. Relacionado à sistemas e planos, o design thinking se manifesta a partir de “integrações de signos, coisas, ações e ambientes que abordam as necessidades e valores concretos dos seres humanos em diversas circunstâncias” (BUCHANAN, 1992, p.10).
O design thinking se reflete nas novas forma para pensar, criar e conceber produtos; nos argumentos e esforços dos designers para integrar conhecimentos de novas maneiras e adequar-se à situações e necessidades específicas (BUCHANAN, 1992).
Na visão de Buchanan (1992), a ideia do design thinking está na superação das limitações de argumentos verbais ou simbólicos – em separar de palavras e coisas, ou teoria e prática.
No design thinking não existem fronteiras rígidas entre áreas e nem apenas uma única alternativa ou crença em qualquer uma das ciências (natural, social ou humanista) para encontrar soluções adequadas para os problemas inerentemente wicked.
Ao longo do tempo, essas ideias ganharam novos recortes e o terma ficou popularmente reconhecido pelas lentes de Tim Brown (2011).
Na tecnologia, e mesmo na área da saúde, é comum escutarmos termos como “ideação”, “prototipagem”, “multidisciplinaridade”, “cocriação” e tantos outros vindos do design.
As empresas passaram a perceber a importância estratégica da disciplina em campos que não tratam apenas da produção material, mas da articulação de projetos de gestão, experiências e, mesmo, emoções (KRIPPENDORF, 2006).
Nesse contexto surge o termo “Design Estratégico”, introduzido pela comunidade científica italiana a partir dos anos 90. Sua definição remete à expansão do design para áreas que lidem com o design juntamente com a administração empresarial, visando impulsionar a aprendizagem para guiar processos de desenvolvimento de estratégias e inovação e assim, gerar vantagens competitivas e sustentáveis. Trata-se de abordar o design de forma integrada e sistêmica para projetar o sistema-produto-serviço (a integração de produtos, processos e comunicação) e construir valor juntamente com os diversos atores que possam impactar de alguma forma o negócio. Funcionários, consumidores, fornecedores, sociedade, etc. (CELASCHI, 2007; DESERTI, 2007; MERONI, 2008; ZURLO, 2010).
Conforme pontua Zurlo (2010), a cultura do design se estabelece através de habilidades específicas do designer, que possui características particularmente funcionais para a ação estratégica nas organizações. A capacidade de compreender problemas e oportunidades no presente, de prever e antecipar o futuro de forma crítica, e – o principal, de facilitar a visualização dos caminhos para os diferentes atores envolvidos no processo, são capacidades distintivas do designer para tangibilizar ideias inovadoras e auxiliar na tomada de decisão.
Apesar da relevância do design, em linhas gerais, a ideia da atividade como fomentadora estratégica ainda não é evidente na grande maioria das empresas. De acordo com o Diagnóstico do Design Brasileiro (2014) apenas 14,5% das organizações utilizam o design como parte da cultura da gestão empresarial. São empresas que estabelecem-se como líderes de mercado através do design e inovação. Na visão de Franzato (2010) mesmo nestas empresas, a atividade é relacionada ao desenvolvimento funcional e estético de produtos, gráficos e ambientes.
Em outros contextos, em empresas menores, a cultura do design como articuladora estratégica, pode ser ainda menos difundida. Em 31% das empresas, o design é utilizado apenas em nível de projeto, de maneira esporádica e com pouco conhecimento disponível, e em 28% a presença do design é praticamente inexistente. De acordo com a pesquisa, um dos fatores que influenciam nestes resultados é a falta de compreensão das organizações em relação a todas as potencialidades que a área pode oferecer. Nestes casos, o contato com o design se dá geralmente em projetos pontuais, e o conhecimento é transmitido através de atores externos como escritórios de design, designers e freelancers (BRASIL, 2014; FRANZATO, 2010).
A olhar para os problemas através de novas perspectiva, mais integrativas com outrras áreas e centradas no ser humano. A sair da caixa, ter novas ideias, prototipar, errar e gerar novos aprendizados. A utilizar as tecnologias a seu favor. A lidar com os desafios do cuidado e promoção de saúde de novas formas, mais inovadoras e mais humanas.
• BORJA DE MOZOTA, B. 2003. Design management: using design to build value and corporate innovation. New York, Allworth Press, 281 p.
• BRASIL. 2014. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Centro Brasil Design. Diagnóstico do Design Brasileiro. Disponível em http://www.mdic.gov.br/arquivos/dwnl_1402666459. pdf. Acesso em: 22/07/2017.
• BUCHANNAN, Richard. Wicked Problems in Design Thinking. Disponível em: http://web.mit.edu/jrankin/www/engin_as_lib_art/Design_thinking.pdf. Acesso em: 22/07/2018.
• CELASCHI. F. Dentro al progetto: appunti di merceologia contenporanea. In: Celaschi, F.; Deserti A. Design e innovazione: strumenti e pratiche per La ricerca applicata. Carocci, Roma, 2007.
• DESERTI, Alessandro. Design e innovazione: strumenti e pratiche per la ricerca applicata. Roma: Carocci, 2007.
• KRIPPENDORFF, Klaus. The semantic turn: A new foundation for design. London: Taylor & Francis, 2006.
• FRANZATO, C. O design estratégico no diálogo entre cultura de projeto e cultura de empresa. Strategic Design Research Journal, [S.l.], 2010.
• MAURI, Francesco. Progettare progettando strategia. Milano: Masson S.p.A, 1996.
• MERONI, Anna. Strategic design: where are we now? Reflection around the foundations of a recente discipline. Strategic Design Research Journal, v.1, n.q, Dec 1, p.31-28. 2008.
• ZURLO, Francesco. Design Strategico. In: AA. VV. Gli spazo e le arti. Roma: Enciclopedia Treccani, 2010.
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Nicole Simonato é estrategista de marca, marketing e comunicação, fundadora da ThinkLab e especialista em posicionamento de marcas, autoridade digital e crescimento comercial. Atua com o inteligência comercial para clínicas há mais de 15 anos, direcionando estratégias para clínicas de dermatologia, cirurgia plástica e harmonização facial .
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